Os Gatos de Ulthar
1 - Os Gatos de Ulthar.
Vou fazer mais ou menos uma narração/resumo da história, para que fique mais claro por que comentarei o que comentarei.
Em Ulthar, depois do rio Skai, há uma lei que proíbe o assassinato de um gato. É até possível de entender a lei pela graça do bicho, bem como pela sua natureza enigmática a mente humana, com suas relações aparentes com o além.
Antes da proibição haviam dois moradores, um velho camponês e sua esposa, que tinham como prazer e diversão a captura e a matança dos gatos dos vizinhos. Poderia ser por odiarem o barulho noturno ou o incômodo pelas criaturas correrem furtivamente pelos pátios jardins ao anoitecer, mas qual fosse o motivo, o casal apreciava capturar os gatos com armadilhas e matá-los de uma forma única de tal forma que os barulhos soavam pela noite. Os aldeões, com raiva ou com tristeza, não se atreviam a questionar ou comentar nada com o casal, com um temor profundo sobre eles e sua casa pequena e sombreada entre carvalhos e de apresentação malcuidada.
Um dia, uma caravana de viajantes estranhos do Sul visitou Ulthar. Eles eram escuros, diferentes dos outros viajantes itinerantes que visitavam a cidade algumas vezes por ano. Praticavam magia em troca de algumas moedas, compravam pedras coloridas e faziam rezas estranhas. As carroças eram pintadas e ilustradas com figuras humanoides com partes de animais, e o líder usava um adorno com chifres e um disco entre eles. Nesta caravana havia um garotinho, órfão de pai e mãe, que tinha um gatinho preto que lhe fazia companhia e consolo - já que ainda chorava pelos pais.
No terceiro dia dos viajantes na cidade, o garoto não encontrou o gatinho. Um momento, encontrou-se chorando no mercado da cidade. Alguns cidadãos, qual fossem seus motivos, contaram ao menino sobre o velho casal e sobre os barulhos que ouviam da casa deles a noite. O menino deixou de chorar, pensou e, então, começou a rezar em uma língua desconhecida, cuja incompreensão foi ignorada pelos moradores que passaram a ver as nuvens escurecerem e formarem figuras estranhas de híbridos, distintamente coroados com discos ladeados por chifres. No mesmo dia os viajantes foram embora, os gatos da cidade desaparecendo em sua deixa.
Os moradores ficaram irritados, furiosos e chateados. O prefeito da cidade amaldiçoou os viajantes por roubarem os gatos em vingança pelo gatinho preto morto, enquanto outro moradores apontaram para o velho casal como os culpados pelo desaparecimento dos gatos - levando até a alguns comentários sobre eles terem feito bruxaria para atrair todos os gatos para enfim matá-los, após o neto de um dos moradores dizer ter visto os gatos circulando a casa do casal. No final, os gatos voltaram para suas casas na manhã seguinte - e o prefeito amaldiçoou novamente os viajantes, dizendo que os gatos nunca voltavam vivos da casa do velho camponês e sua esposa.
Os gatos estranhamente não comeram por dois dias, parecendo redondos e muito confortáveis, ronronando satisfeitos. Além desse evento estranho, não houve mais aparições do velho casal de aspecto assustador. Na verdade, nem mesmo focos de luz eram vistos da casa entre carvalhos. Após um semana, então, após superar o temor e qualquer outra forma de receio, o prefeito da cidade foi até a casa do casal, levando consigo um ferreiro e um artesão de pedras como testemunhas, para depararem-se com um par de esqueletos humanos dentro da casa.
No final, após as considerações do médico e do tabelião da cidade entre si e os interrogatórios serem feitos com o prefeito, o ferreiro, o artesão e até o neto do estalajadeiro que havia visto os gatos rondando a casa, refletindo sobre sobre tudo que passou, os aldeões aprovaram a lei de proibição do assassinato de qualquer gato na cidade.
2 - O horror de Lovecraft
O horror lovecraftiano define-se pelo sentimento de terror frente a algo além da compreensão humana, baseado na primitividade e fundamendatilade do medo e a intensidade dele, naturais a formação mental do homem. O medo do medo, geralmente além da concretude da própria ameaça. As suas obras, assim, tomam a perspectiva de privilegiar as formas em que os efeitos que se busca provocar em quem as percebe são mais bem efetivos. A ansiedade colapsa a mente e a faz entrar em devaneio, histeria ou psicose, qualquer reação de extremo estresse e de irracionalidade mais pura.
Os Gatos de Ulthar, talvez por ser uma das obras mais antigas de Lovecraft (fora escrito em junho de 1920), não tem o mais aterrorizante já produzido por Lovecraft (O Chamado de Cthullu, A Casa Abandonada, A Cor Que Caiu Do Céu, Nas Montanhas da Loucura, dentre outras obras, foram escritas pelo menos 6 anos após), mas possui elementos que acompanham todas as produções do autor:
- A localidade do terror
Não há uma viagem pelo espaço; não há uma visita a lugares além da realidade. Por mais bizarros, confusos e desencontrados que sejam os lugares percorridos ou em que acabem os contos de Lovecraft, todos eles começam e traduzem o terror em uma atmosfera minimamente próxima da realidade mais tangível e identificável ao leitor. Em Os Gatos de Ulthar, a localidade se configura como uma cidade qualquer com pessoais quaisquer com cotidianos quaisquer. O terror não é exatamente natural, ele é trazido, seja por si próprio ou por alguma outra coisa.
- A natureza exterior do místico
O místico nas histórias não se encontram dentro do mundo, estando além da realidade objetiva do homem e levando a um confronto (experiência) do objetivo e da potência (que tem o sublime de horizonte) e ocorre a transcendência, que variam conforme são as histórias e os personagens. No caso em questão, o objetivo e a potência encontram-se como partes da própria história, à parte de alguma experiência particular, uma ocorrência anormal dentro de Lovecraft. A resolução acaba por não ser uma transcendência de nenhum personagem, mas do próprio leitor, pela percepção exterior através da inserção na história pelo próprio ato de estruturação imaginária decorrente da leitura.
- O caráter exótico do místico
O místico lovecraftiano é atrelado a algum conjunto recorrente de figuras: morenos, mestiços, idosos, selvagens, bárbaros, antiguidade, imanência, o descomunal, etc. Lovecraft toma as figuras ou como estranhas ou como hipersensíveis, capazes de entrar em contato com aquilo que não é comum dentro de uma perspectiva predeterminada de recorrência, as vezes se perdendo em puras formas de estereótipos e preconceitos da sua própria época. No caso, além da preconcebida percepção de exterioridade de pessoas escuras, o misticismo atrelado a tais figuras em uma relação com culturas antigas - também de forma preconcebida - aparecem de forma extremamente evidente.
3 - Curiosidades e tecnicidades.
Acredito eu que há apenas duas curiosidades que posso dar sobre a história:
1) Ela se passa inteiramente em um lugar ficcional, a Terra dos Sonhos, um lugar mais ou menos metafísico acessível aqueles mentalmente sensíveis e de capacidades mentais superiores; e
2) É uma das histórias com menor teor racista de Lovecraft, sendo a única parte potencialmente ofensiva da obra a relação de magia com pessoas de cor, em vista do fato de que o exótico da magia mais profunda encontra-se na percepção da sobrenaturalidade dos gatos.
Minha versão do conto é a registrada em "O Chamado de Cthullu e Outros Contos" da box "HP Lovecraft: Os melhores contos", impressão de 2018, editora Pandorga. Recomendo fortemente comprarem por ela, já que tem preços bons e brindes bem divertidos.
Por algum motivo, quando pesquisei, diz "Editora Chrono", mas é dito Editora Pandorga nos próprios livros.
4 - Considerações finais
Sendo sincero, não era para ser tão grande nem para ter demorado tanto. Eu comecei a escrever por volta das 15 horas de quarta-feira (11/01), mas acabei desviando muito do caminho com vídeos, jogos e café.
No meio pro final eu meio que devaneei. Acabei resolvendo puxar Jaspers pra tentar aprofundar um pouco a ideia (e pra me exibir um pouco), mas acredito que brutalizei tanto a filosofia quanto a psicologia e a literatura com isso. Enfim, não quero passar por isso de novo.
Comentários
Postar um comentário